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Editorial Caixa Verde 3
A Maria Teresa Eugénio de Almeida, Condessa de Vill’Alva,
no centenário de seu nascimento.

No dia 16 de Setembro de 2021 Maria Teresa Eugénio de Almeida, Condessa de Vill’Alva, faria 100 anos. Esta ocasião foi já lembrada num longo artigo, assinado por Ana Cristina Marques, publicado no jornal Observador on line no passado dia 18 de Setembro. “Apaixonou-se pelo Alentejo e viveu num "castelo" em Lisboa. A vida notável de Maria Teresa Eugénio de Almeida”, é o título da referida peça, cheia de factos e informações que traçam o perfil de uma infância, juventude, casamento e viuvez preenchidos pela família, pela dedicação a causas, pela memória do seu marido, Vasco Maria Eugénio de Almeida, e pela extraordinária vida de filantropia e criatividade de ambos, até ao fim, a 42 anos de distância um do outro.

O nosso objectivo, neste editorial, é homenagear Maria Teresa Eugénio de Almeida lembrando o seu papel determinante na vida da Associação D. Pedro V. A primeira referência explícita à sua participação numa reunião do Conselho Director do então Asilo D. Pedro V data de 26 de Agosto de 1974, num momento de viragem da vida daquela instituição: por um lado, as mudanças estruturais na sociedade portuguesa tinham vindo a tornar obsoleto o modelo de apoio seguido, desde 1857, pelo Asilo que, naquela altura, já contava com um número muito reduzido de alunas e era, na prática, sustentado unicamente por Vasco Eugénio de Almeida; por outro lado, a Revolução do 25 de Abril de 1974 tinha repentinamente instalado um conjunto de medidas e de comportamentos, circunstanciais mas nem por isso menos eficazes, tendentes ao desmantelamento do sistema de apoios sociais até então existente. Nessa reunião de 26 de Agosto, Maria Teresa Eugénio de Almeida apresentara medidas para a resolução do problema de recolocação das menores, e sugerira a criação de uma creche.

A partir de então a sua participação no destino desta Associação foi decisiva e ininterrupta ao longo de várias décadas. A morte do seu marido, em 1975, levou-a a assumir um inesperado protagonismo nas muitas iniciativas de cariz empresarial e filantrópico que o Conde de Vill’Alva já consolidara ou começara a desenvolver. No que toca à Associação D. Pedro V, empenhou-se na procura de soluções que passaram por uma fase de negociações, com diversas entidades políticas num período de grande instabilidade – o PREC – no sentido de preservar o património da instituição e reconvertê-la naquilo que passou a ser, em 1982, a Associação de Solidariedade Social D. Pedro V. Em 1983 Maria Teresa Eugénio de Almeida assumiu a presidência da Direcção da Associação e definiu um projecto de intervenção novo, ajustado às novas circunstâncias sociais do país.

Presidiu à Direcção até 2002, com uma dedicação e inteligência que nunca será demais sublinhar. Neste breve apontamento não há espaço para referir as muitas iniciativas que liderou nesse período, mas apenas para desenhar, a traços largos, a sua personalidade e qualidades de gestão. Com uma vivacidade e alegria contagiantes, um sentido de humor sempre oportuno e arguto, era uma personalidade “larger than life”. Sabia escolher os seus colaboradores, que lhe eram infinitamente dedicados; sabia o que queria, mas também sabia ouvir e respeitar posições diferentes das suas. Era uma líder natural, com a voz bem colocada, falava depressa e sabia fazer-se ouvir. Transbordava de simpatia e sua personalidade enchia o espaço onde se encontrava. Era a primeira a ir onde fosse preciso: visitar instituições pelo país fora, falar com quem podia ajudar a concretizar os objectivos da Associação. Instalou um ritmo de trabalho notável e não hesitava em convidar voluntários para a sua equipa. Dizia, muitas vezes, que convidava as pessoas que tinham mais que fazer, porque essas eram as que arranjavam sempre tempo para fazer mais. Tinha toda a razão. A sua hospitalidade era lendária. Geria o património da Associação com parcimónia, e orgulhava-se de apresentar às Assembleias Gerais um máximo de donativos para um mínimo de despesas de funcionamento. Instalou uma cultura de austeridade interna e de generosidade para com outrem, os que precisavam. Culta, cosmopolita, inteligente, percebia os sinais dos tempos e a necessidade de adaptar e de mudar.

Morreu no dia 14 de Julho de 2017. Em 2018 a Associação D. Pedro V quis prestar-lhe uma homenagem por alturas do dia dos seus anos, a 16 de Setembro. Promoveu, então, um encontro com os responsáveis por instituições nas quais tivera intervenções directas, que fosse ao mesmo tempo um momento de homenagem a Maria Teresa Eugénio de Almeida e de reflexão sobre a situação das crianças e jovens em Portugal. Este encontro teve lugar no dia 18, e reuniu, no auditório da Igreja de São Sebastião da Pedreira, um significativo número de pessoas que quiseram afirmar a sua estima pela pessoa da Condessa de Vill’Alva e a sua gratidão pelos apoios que, ao longo dos anos, foram concedidos às instituições que dirigiam. Muitos foram os que usaram da palavra, com indisfarçada emoção. Na impossibilidade de aqui reproduzirmos todos esses testemunhos, lembramos apenas alguns excertos, que evocam, em discurso directo, quem foi Maria Teresa Burnay Bello Eugénio de Almeida enquanto Presidente da Associação D. Pedro V:

Do testemunho de Maria João Avillez Ataíde:
(…) Acompanhei, pois, a dinâmica que converteu o Asilo em Associação de Solidariedade D. Pedro V, liderada já por Teresa Vill´Alva após a morte do marido em 1975. Recordo o seu empenho em dotar a nova instituição de recursos próprios que pudessem sustentar a actividade solidaria a que se propunha e tive a oportunidade de a acompanhar em visitas a Centros para a Infância que pediam apoio financeiro à Associação; visitas interessantes, em que ela contava com a experiência da API na área pedagógica e manifestava com vivacidade o seu próprio parecer. (…) Quando a Escola de Maria Ulrich celebrou 40 anos de existência, em 1994, a Condessa de Vill´Alva fez questão de participar nessas comemorações, na sua qualidade de associada fundadora da Associação de Pedagogia Infantil. Abriu generosamente as portas da sua residência em Évora para uma recepção aos professores parceiros da Escola, vindos de toda a Europa, num gesto que os encantou e lhes permitiu conhecerem uma região encantadora.

Do testemunho da ASCTE (Associação Sócio-cultural terapêutica de Évora), Joana Isabel Peixe Taveira:
Era uma pessoa transparente nos gestos e intenções. De olhar límpido, atento e acolhedor. Sabia descer os degraus que fossem necessários para chegar aos que necessitavam e, sem preconceitos. Soube construir uma humildade genuína, ao dar sem nada pedir em troca. Não subordinava a qualquer exigência. Soube atender a muitos que de uma forma ou outra cruzaram os caminhos da sua vida, sem impostura, com gratuidade absoluta, não limitando a sua acção apenas ao dar materialmente, mas também ao ajudar a construir uma aceitação esperançosa da vida. Todos sabemos o quão importante é a Esperança para os que se veem privados de tudo e sem recursos. Ela conseguia com a sua persistente benemerência criar essa Esperança, quando tudo parecia perdido. Não era uma pessoa indecisa, mas corajosa. Investiu onde poucos o fariam, com sabedoria e atitude construtiva. Soube dar oportunidades, consciente de que a existência se constrói com contributos diferentes, apoiando trilhos novos, mesmo que isso atraísse alguns riscos. Valia a pena corrê-los. Desistir é que não. Sabia escutar, porque nunca usava como primeira resposta o não. (…) Algo de muito nobre existia no seu coração. A inquietação que o realismo dramático da vida dos que vivem privados das suas capacidades lhe causava, era tão forte, que não os esqueceu. Entregou-se a numa missão de protecção caritativa que não existem palavras que a descrevam. Sem dúvida que era o Amor ao próximo que a movia.

Do testemunho do Centro de Assistência Social da Guarda, pela presidente do Centro de Assistência Social, Maria da Paixão Martins:
Hoje queremos destacar, no que tivemos oportunidade de conhecer, a sua ação como Presidente da Direção: Sensível e de uma bondade perante a vida. Estava sempre atenta aos outros, e através das Instituições que beneficiaram deste bem, chegou também às crianças. Esta homenagem não faz apelo somente ao passado, mas apela também a tornarmos presente tudo aquilo que a Senhora Condessa era e como era na vida e na Ação Social. Que isso, esteja na nossa frente como um exemplo para o futuro, uma referência de vida enquanto cidadãos e cristãos. Hoje fazem falta figuras de referência, modelos para os quais olhar. Eles existem. Prestar-lhes homenagem é uma boa maneira de os tornar visíveis e vivos para uma vida que não pára e à qual são necessários rumos que dignifiquem as pessoas, o país e a Igreja.